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Entrevista

A política social brasileira e a luta do (a) trabalhador (a) rural no Brasil


Entrevista com Antônio Leite, 62 anos, trabalhador rural, liderança política e diretor da ASSEMA, morador do município Lago do Junco, estado do Maranhão, Gente de fibra.


1- O Pacará – Quando você começou o sonho de construção social?

Antônio Leite: Nasci e me criei na roça. Na década de 80 travei uma luta no Maranhão pela reforma agrária e pelo babaçu livre, política partidária e sindicato combativo. Uma luta de modo geral. O nosso grupo foi crescendo ao ponto de nos fazermos atingir vários objetivos que estamos adquirindo hoje.

A luta tem que continuar a ir pra frente mesmo. A luta sem evolução não faz sentido. Nós temos uma evolução travada no Brasil, dos imperadores aos primeiros presidentes. Mas a gente foi mudando essa realidade e devido à luta, nós temos hoje um presidente democrático e social, que vem de uma luta dos camponeses do Nordeste, expulsos pela seca e pela miséria, que foi mendigar em São Paulo e lá se tornou metalúrgico. Foi um dos idealizadores da CUT e fundador do Partido dos Trabalhadores. Enfrentou uma barra muito pesada, mas vem superando. A pena que eu tenho é que ele está no meio de um bando de leões, que impede a democracia de progredir. Pra mim a liderança é aquela que o povo diz.

Já era para ter no Brasil um governo nas mãos dos trabalhadores e uma boa administração pública. Hoje, sentimos um alívio muito grande, uma alegria. A vida dos trabalhadores melhorou. Do que eu vi pra trás como criança, que vi meus pais sofrendo, mendigando do Ceará pra cá, expulsos pela seca, pela miséria e pela fome. E aqui no Maranhão a gente sofreu com as terras presas, babaçu preso. Hoje a realidade é outra, mesmo sem ser uma democracia como era esperada, mesmo assim me sinto feliz. A felicidade que me acho hoje é poder ver meus filhos e os filhos dos outros não passar pelo sofrimento que já passei.


2 – O Pacará: O que você mais deseja para seus filhos e os filhos do Brasil?

Antônio – A educação é a prioridade, porque através dela a pessoa adquire muita brecha para ter uma vida mais feliz. E que esse estudo tenha um reconhecimento no mercado de trabalho.

3 – O Pacará: E para o Brasil? O que você mais deseja?

Desejo que a democracia chegue a cada porta. Que saia do congresso, dos poderes e chegue de casa em casa, como é pra ser.

4 – O Pacará: Você acredita que a política social brasileira está em fase de evolução?

Antônio – Sim, acredito. Mas ainda não é o que desejamos. Você ainda vê vários trabalhadores no interior sofrendo muito. Estão lá na cozinha do patrão, estão varrendo rua, ou fazendo qualquer atividade distante da agricultura. O Sindicato Rural é o segundo poder nos municípios do Maranhão. Mas os STTR’s não têm ciência disso. Os trabalhadores deveriam se mobilizar melhor dentro dos municípios para conseguir cada vez mais ter força política no Governo e trabalhar pela qualidade de vida no campo. Onde existe a maior concentração de poder é onde deve ter uma maior consciência dos trabalhadores. Acho que a organização social no Brasil já tem um começo. O alicerce social no país está sendo construído, falta fazer o prédio.

5 – O Pacará: Você acredita que existe honestidade na política?

Acredito sim. Existem pessoas honestas dentro da política partidária. Existem mulheres e homens que só querem o deles e mais nada. Pessoas que trabalham para que o orçamento da união seja da União. E não, apenas de poucos. Existem pessoas limpas.

6 – O Pacará: É importante que as pessoas decentes estejam dentro do comando, dentro do Governo?

Antônio – Claro. Eu sempre falei para os meus companheiros e companheiras, lá onde eu estou na Assembléia, ou na roça, ou no coco, mais minha mulher, minha família, onde estou, que a luta não pode parar um segundo. Tem que continuar no dia-a-dia. A pessoa decente tem que estar no comando.

7 – O Pacará: Como você analisa o poder e o dinheiro?

Antônio – Deus não é contra ao poder, ele é contra ao abuso de poder. Deus não é contra o dinheiro, ele é contra ao uso errado do dinheiro. Deus quer que você seja uma pessoa simples. Se você vai passar a ser um líder político, um vereador, um deputado, ou qualquer cargo, que você respeite a humanidade. O dinheiro veio para facilitar as coisas. Quando não havia o dinheiro o povo sofria mais. O agricultor tinha que levar da roça um saco de algodão nas costa pra trocar por outro de sal lá em Pedreiras. Deus quer que você tenha dinheiro, mas que você saiba usar ele. Que saiba aplicar. Não aplique nas coisas que é contra a Deus. Seja feliz na sua família, mas olhe para o mundo, olhe para as pessoas pequenas. Brigue lá no congresso pela questão social. Aí, como Deus vai ser contra a uma coisa dessa?

8 – O Pacará: Qual a mensagem que o senhor deseja para as pessoas em 2007?

Antônio – Em termo da ASSEMA, eu desejo que todos os seus programas não fiquem só no papel, que a gente tenha mais amor pela instituição, pra que ela cresça mais e possa durar por mais 300, 400, 500 anos. E em termo de Brasil, eu desejo que o Natal não seja uma influência, como muitas pessoas fazem. Eu desejo que todos os brasileiros pensem no Natal como uma data especial, para que todos tenham uma vida mais feliz no dia-a-dia.

O Pacará

Por: Bruno de Castro
Publicado em: 12/01/2007

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